O debate A revolução da internet e as transformações sociais e culturais, realizado na tarde de ontem na I BIENAL BRASIL DO LIVRO E DA LEITURA, provou que os avanços tecnológicos são capazes de provocar diferentes leituras, despertar paixões e tensões e ainda revelar preconceitos. O escritor e roteirista francês Jean-Claude Carrière (autor junto com Umberto Eco do livro Não contem com o fim do livro, que compara o livro em papel e o e-book), uma das estrelas do evento, enviou sua participação gravada em vídeo. E ela foi projetada logo na abertura do debate. O escritor de Contos filosóficos do mundo inteiro lançou muitas idéias e provocações e as palavras de Carrière pautaram a discussão posterior. "Cada nova técnica exige uma nova linguagem. Há 120 anos, falaríamos de teatro e literatura, mas nunca de rádio, televisão, cinema", disse o mestre. Mas defendeu: "O e-book é como um outro livro qualquer, não há diferença qualitativa entre os dois. Ambos são leituras".
O debate contou ainda com a participação do gaúcho Marcelo Branco, especialista em tecnologia, e do sociólogo paulista Sérgio Amadeu, profundo defensor da inclusão digital no Brasil, com mediação de Antonio Albuquerque, programador e especialista em cultura digital do DF.
Marcelo Branco alertou para o preconceito das indústrias fonográfica, editorial e cinematográfica com relação ao universo digital e chamou atenção para a complexidade do veículo: se por um lado proporciona uma liberdade de expressão maior, também possibilita um controle social maior. Todos sabem de todos. "A internet marcou o empoderamento do indivíduo. Ele pode falar direto ao público, sem intermediários. O artista não precisa mais se submeter às regras de uma empresa para mostrar sua obra. Basta colocar na internet", disse.
A participação do sociólogo Sérgio Amadeu foi um verdadeiro show de comunicação. Com a fluência de um professor, acostumado a falar em público, Amadeu discorreu sobre técnicas, linguagens, formatos, suportes, praticamente traduzindo para o público leigo expressões que às vezes soam como idioma desconhecido. "O virtual é uma existência do real. Eles não são antagonistas, não se opõem", afirmou.
Sérgio Amadeu lançou por terra algumas das mais citadas máximas ligadas à internet, como o fato de que a rede massifica tudo e impede a diversidade: "Ao contrário, a rede ampliou a diversidade cultural, tem sido fundamental para a articulação de idéias, circulação de conteúdos", rebateu. E revelou: "Para as lideranças indígenas e quilombolas, a rede tem sido um instrumento vital".
O sociólogo também apontou sua mira para os direitos autorais. "Eu vi uma produção muito bem-humorada, que foi proibida de circular, só porque fazia uma brincadeira com Star Wars e Shakespeare in Love para construir um terceiro filme, George Lucas in Love. Por que foi considerada crime? Se eles fizeram o mesmo que Disney com os Irmãos Grimm?" - provocou. "Toda cultura é recombinante".
Amadeu chamou atenção ainda para o formato dos arquivos, dizendo que muitos usuários não se preocupam em pesquisar os formatos onde irão gravar sua memória. Ele instiga: "O formato digital não é a mesma coisa de um bloco de papel. Os formatos não são iguais; eles são lidos por um software criado por uma empresa. Se estes softwares forem abandonados, esta memória vai ficar inacessível, em posse de uma só empresa". E, bem provocador, o sociólogo concluiu: "a velha mídia vai ter que conviver com o gerador de informação que é o cidadão comum. Porque a história atual está sendo twitada!"
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